Comentários - Resenhas

Rakushisha - Viagens e ovos de dragão vermelho caídos

Por Sandra Gonçalves.

Uma viagem em busca do Japão espiritual do poeta Matsuo Bashô (1644–1694) é o mote do novo romance de Adriana Lisboa, que acaba de ser editado em Portugal pela Quetzal.

A escritora brasileira apresenta-nos um livro a três vozes - Haruki, Celina e Yukiko -, que tem o poeta japonês como figura central.

Haruki, um ilustrador brasileiro de origens nipónicas, é incumbido por Yukiko, tradutora, de ilustrar «Saga Nikki», o diário que o poeta Bashô escreveu durante uma visita a Kiorai, seu discípulo e habitante de Rakushisha, a «cabana dos caquis caídos».

Desconhecendo o Japão e as suas tradições, Haruki decide deixar o Brasil e viajar até terras nipónicas para melhor compreender o trabalho que lhe foi encomendado. Numa viagem de metro, conhece casualmente Celina, e convida-a a acompanhá-lo.

Celina não tem nada a perder. Há sete anos a viver «entorpecida» por uma tragédia familiar, aceita. E juntos partem. Mas não se pense que o livro resvala em romance. Aqui não há afectos, apenas puro acaso e uma viagem a dois sem pretensões amorosas.

Celina, personagem que entra na narrativa sem contexto, acaba por ser o corpo da história. Uma mulher fragilizada, que teve que «reaprender a andar».

«Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil...»

«Estive reaprendendo a andar. Estou reaprendendo a andar...»


Mas que ao longo da viagem, que a leva a Quioto, descobre que o tempo cura as feridas e que todas as viagens têm alguma coisa a ensinar.

«A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. Que nós somos como a passagem dos dias e dos meses e dos anos …e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.»

«Rakushisha» é enigmático - vai suscitando curiosidades – e inteligente. A escrita de Adriana Lisboa, aos poucos e poucos, e quase de forma misteriosa, acalenta as nossas ansiedades na procura pelas respostas.

Recordo-me de questionar o que seria um caqui (a cabana dos caquis caídos) - e a escritora «presenteia» o leitor com a resposta (página 148) – Caquis são ovos de dragão vermelho, diospiros na sua forma poética. Inesperado!

Subtilmente, o livro transpira o Japão, ao descrever a cultura, os rituais, a chuva miudinha, a língua. Deixa vontade de partir e a mensagem de que «a viagem sempre é pela viagem em si. É para ter a estrada outra vez debaixo dos pés.



Outras Resenhas
Voltar