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MIL E UMA VOLTAS DO ENREDO
Marília Rothier Cardoso

Adriana Lisboa fala de memória e tempo em romance que valoriza o amor

Mesmo quando escritas (desenhadas ou filmadas), as narrativas guardam inequívocos ecos da voz feminina, desde que, no século XVIII, os relatos, feitos por uma certa Sherazade, durante mil e uma noites, foram-se espalhando pelo Ocidente, através de diversas traduções e adaptações. Atualmente, redobra a sedução da rainha árabe, tanto no papel feminista, que lhe tem sido atribuído, quanto como representante da habilidade de tecer enredos encadeados. O segundo romance de Adriana Lisboa, Sinfonia em branco, mantém o leitor cativo, pela força da mesma sabedoria, que repete enredos conhecidos, rememorando mitos e provérbios, na busca de conjurar a violência contida neles. Mas, à diferença de sua ancestral, essa narrativa contemporânea perverte a seqüência temporal e deixa cenas e perfis apenas delineados, como instigação à descoberta de saídas novas para velhos impasses.

Não é, no entanto, a autoria de uma mulher, nem o destaque das personagens Maria Inês e Clarice, que explica o tom feminino vivificador da atividade de contar. Ao contrário do que se poderia prever, o ponto de vista narrativo corresponde a uma voz anônima, a princípio sem gênero e sem herança cultural. Os traços identificadores, que o narrador vai adquirindo ao longo da leitura, resultam da própria tensão, ora fraca, ora fortíssima, entre o movimento narrativo e o motivo narrado. As duas personagens principais, as irmãs Clarice e Maria Inês, ocupam, alternadamente, as posições de protagonista e testemunha de tramas míticas, onde o poder patriarcal se revela com agressividade ou se disfarça em tensões familiares-sociais do cotidiano. O foco, que apresenta essas tramas, sabe como fragmentá-las ou desdobrá-las de modo a manter o suspense, ao mesmo tempo que aguça a sensibilidade crítica do leitor. Este é chamado à participação apaixonada na trajetória das personagens, ocupadas, por sua vez, em decifrar suas próprias vidas. Se Sherazade neutralizou o poder do rei assassino, foi através de uma estratégia matreira de aliança e sedução. Também o narrador de Sinfonia em branco exercita a suave revolta feminina, apropriando-se de intrigas tradicionais e de soluções estilísticas já experimentadas para criar a cumplicidade da leitura e, assim, vencer os preconceitos morais, políticos e estéticos do público a que se dirige. O romance de Adriana Lisboa distingue-se pelo ritmo sereno e negaceante da escrita, composta caprichosamente por longos segmentos narrativos, que se alternam, a espaços mais ou menos regulares, com descontinuidades silenciosas. O título, Sinfonia em branco - uma referência, sempre relembrada ao quadro de Whistler --, tem o valor sinestésico da expressão potencializado pela técnica construtora do texto: os blocos narrativos, apresentados em sucessão não cronológica, produzem efeito de simultaneidade, transformando o desenho escritural em acordes de música. Paralelamente, o plano do tempo, que permite o contraponto entre ruído e silêncio, duplica-se em dimensão espacial, onde os sinais gráficos opõem resistência ao branco da página (ou onde a pintura, só em parte colorida, destaca a ausência da cor).

A forma de composição verbal, que explora a dupla dimensionalidade, aproximando-se dos modelos da música e da pintura, remete, em gesto de homenagem, à poética de vanguarda - poética responsável pela minimização da intriga, em repúdio à linhagem sherazadiana, isto é, ao padrão mimético da arte transformado em mercadoria para a massa. A rebeldia femininamente esperta de Sinfonia em branco constitui, sem dúvida, na combinação de tais parâmetros opostos da cultura: o que privilegia as belas artes e as belas letras, renegando a reciclagem do popular, e o que aproveita as tradições clássicas e folclóricas, sem preconceitos contra o circuito da mídia. O trabalho de Adriana Lisboa -- ao contrário de vários exercícios narrativos atuais, bastante presos ao esquematismo da economia jornalística -- insiste na elaboração de intrincados enredos, que instalam fantasias inesperadas no interior dos ritos cotidianos e entrelaçam o plano da ação prática ao da atividade psíquica. No contexto pós-moderno, onde se multiplicam as intrigas policiais ou as viagens sem rumo de tipos propositalmente planos e ocos, Sinfonia em branco destaca-se, quando instala sua trama - armada como um requintado jogo de montagem -- na memória (imediata e remota) de seus personagens.

O mais atraente, na leitura de Sinfonia em branco, é sua posição de narrativa que se singulariza no conjunto das produções contemporâneas. Da matéria escolhida - uma história familiar de casamentos, traições, incestos, crimes e castigos - à técnica utilizada, tudo no romance soa igualmente banal e estranho. As relações conflitivas das irmãs Maria Inês e Clarice, assim como as afinidades e desencontros entre cada uma delas, seus pais, maridos ou namorados, formam um painel multifacetado, onde se registram, justapostos, fragmentos da infância, adolescência e maturidade. Trata-se de um artifício de construção, cujo conjunto reduplica os modelos em miniatura, desenhados em várias faces. Nas Mil e uma noites, os protagonistas dos contos de Sherazade tornam-se, por sua vez, narradores de outros contos, à maneira de um labirinto que oferece o mapa para seu percurso. Neste romance sinfônico, as personagens, desenhadas pelo movimento narrativo, também produzem artefatos artísticos - quadros decorativos, esboços de escultura. Não são obras-primas, nem buscam aproximar-se delas, mas servem de alternativa aos impasses do auto-conhecimento. Se o leitor deseja decifrar-se, durante a leitura do romance, recebe esse estímulo irresistível da voz que conduz a narração.

Marília Rothier Cardoso
é professora de Literatura Brasileira da PUC-RJ.



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