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DELICADEZA DE ADRIANA LISBOA NAS NARRATIVAS CURTAS DE CALIGRAFIAS
Sérgio de Sá
publicado originalmente no jornal O Globo
em 25.12.2004
Seria Adriana Lisboa uma espécie de Amélie Poulain, a protagonista do filme de Jean-Pierre Jeunet que vê felicidade nas pequenas coisas? Seria uma nova Pollyanna, a difundir o "jogo do contente"? Se o livro se chama Caligrafias, a autora colocou mais do que a mão na massa literária. Escreve, de corpo inteiro, para celebrar a vida e pode ser tomada também como personagem.
O quarto livro da escritora carioca é o primeiro não-romance. As "pequenas narrativas" foram escritas entre 1996 e 2004, como interstícios entre as longas histórias. Depois de uma estréia titubeante em Os fios da memória, repleta da ansiedade que precisa mostrar que conhece o ofício, a autora fez Sinfonia em branco, de longe o trabalho de maior fôlego. Surgia a promessa.
Um beijo de colombina, o terceiro livro, concebido originalmente como dissertação de mestrado, tateia entre a obrigação acadêmica de inserir Manuel Bandeira no discurso e o manejo de uma trama metanarrativa que tenta não abrir a guarda ao leitor. Passeia perigosamente sobre o clichê ao exacerbar o que o crítico e professor Denilson Lopes chama, em relação a Sinfonia em branco, de "arte da sugestão, do recolhimento, de modesta ausência de novidades".
Caligrafias dá uma pausa nos romances ao mesmo tempo em que abre para Adriana Lisboa uma perspectiva que não é nova dentro da literatura brasileira recente, mas que parece feita sob medida para a delicadeza da autora, antes sufocada pelas necessidades do relato extenso. Os minicontos se aproximam da poesia em busca do estritamente necessário para encontrar na realidade pontos de fuga. Estratégia de escape do excesso, sobretudo, de informação e brutalidade.
E nisso o novo livro é extremamente bem-sucedido. Os flashes são concebidos muitas vezes a partir de experiências vividas (ainda que, em certo sentido, pobres). A ida a Brasília no começo deste ano gerou "Reencontro", a participação na Bienal do Livro de São Paulo produziu "Paulicéia", na viagem a Portugal para receber o Prêmio José Saramago vislumbrou outros desses instantes ficcionais, e assim por diante. A experiência narrada ensina e confirma apenas e tão-somente que tudo é ficção.
Caligrafias são traços de memórias recentes que se querem inscrições de silêncio. Trazem à tona a questão autobiográfica por um viés curioso. A experiência é trabalhada diversas vezes, reescrita infinitamente: "Os textos vêm sendo escritos e reescritos há oito anos", afirma a autora. Como o escritor pós-moderno trabalha na falha, na fissura, a memória é necessariamente fragmentada e traz colada em si a possibilidade de misturar registros, embaralhando a vida do leitor, jogado sem aviso aos leões dos formatos. Contos, poemas em prosa ou crônica?
Em face das doses exageradas e maciças de "eu" em todos os lugares midiáticos, com os quais o leitor-espectador está acostumado, resta à autora a timidez da exposição subjetiva em gêneros confundidos, porque de outra maneira isso não seria possível. Importa que ela consiga, em primeira pessoa, falar contra o poder instaurado do individualismo egocêntrico. E talvez assim, como ensinou Clarice Lispector em clássica entrevista televisiva de fevereiro de 1977, persiga a missão do escritor: falar cada vez menos. Ou, melhor, se pronunciar a cada vez com a intenção de revalorar as coisas do mundo.
Contribui para a singeleza de Caligrafias o formato reduzido, 14 cm x 16 cm. As belas ilustrações de Gianguido Bonfanti formam, no entanto, curioso contraste - porque mais lúgubres do que os textos, todos nomeados por uma só palavra ("Pirotecnia", "Enchente", "Reparação" etc.), à exceção de "Corte e costura". Os desenhos, com bico-de-pena e pincel japonês, expõem a visão otimista das palavras, ainda que nunca sobre bases ingênuas à moda antiga de Pollyanna. Pelo contrário, "to be alive is power, existence in itself", proclama Emily Dickinson na epígrafe. Estar vivo é poder, existência em si.
As pequenas narrativas-definições prevêem um fabuloso destino para Adriana Lisboa, a personagem-narradora em busca de duas "eternidades". São dois contos com o mesmo título. No primeiro "Eternidade", a vida independe de passado e futuro, "se mede pelo tempo presente". No segundo, passado, presente e futuro são simultâneos. Em ambos os casos, a literatura se abre a especulações. Não cobra resultados imediatos, objetivos. Espera, quem sabe, uma ligeira mudança de atitude no leitor real, que poderia aprender a costurar. E costurar "não é um modo de defender uma idéia, uma crença, uma nação, uma forma de arranjar as flores dentro dos vasos e dentro dos pontos. Não tem nada a ver com necessidade."
Sérgio de Sá é jornalista e doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal de Minas Gerais.
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