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ADRIANA LISBOA:SINFONIA EM BRANCO
Helena Vasconcelos
Publicado na revista Os Meus Livros (Portugal),
dez. 2003/jan.2004, e na revista virtual Storm Magazine em janeiro de 2001.
Adriana Lisboa, carioca, nascida em 1970, foi a vencedora do Prémio José Saramago, Fundação Círculo dos Leitores, 2003. Com a obra "Sinfonia em Branco" a escritora, que é também música - foi flautista, cantora e professora - arrecadou este galardão, que é atribuído com periodicidade bienal e se destina a estimular jovens autores e a divulgar o património literário da língua portuguesa. O júri constituído por Guilhermina Gomes, Nelida Piñon, José Eduardo Agualusa, Pilar del Rio e Vasco Graça Moura distinguiu Adriana Lisboa pela sua sensibilidade, delicadeza e segurança em termos de técnica narrativa e pela sua elaboração de "uma poesia da visão".
Helena Vasconcelos: O que foi para si receber o Prémio José Saramago?
Adriana Lisboa: José Saramago é, para mim, uma referência, não só em termos literários mas também como ser humano. Ele tem influência no que eu penso, naquilo que eu sou. Quando foi anunciado o prémio, foi uma surpresa total.
H.V.: Quer dizer que conhecia a obra do Nobel português?
A.L.: Sim, desde os dezoito anos. Li "O Memorial do Convento" que me apareceu por acaso, numa feira do livro no centro do Rio de Janeiro. Comprei-o, li e reli. Depois continuei a ler toda a sua obra publicada no Brasil. Por isso o Prémio foi duplamente importante.
H.V.: A leitura de "Sinfonia em Branco" revela que a sua formação literária é muito abrangente. E quanto à Literatura Portuguesa? Para além de José Saramago há algum autor que a tenha impressionado?
A.L. Infelizmente, no Brasil, não temos muito acesso à literatura portuguesa contemporânea, assim como em Portugal se conhece mal a literatura brasileira. Mas os clássicos portugueses estiveram incluídos na minha formação. Quando escrevi o meu primeiro romance andava a ler Eça de Queirós, por conta própria, e isso teve um peso muito grande na minha escrita, a ponto de alguns críticos brasileiros acharem que eu utilizava uma linguagem muito conservadora, um pouco retrógrada.
H.V.: Em "Sinfonia em Branco" a história revolve em torno de duas irmãs. Tinha em mente descrever um universo essencialmente feminino?
A.L. Não me preocupei em falar da experiência feminina embora tenha feito pesquisa nesse sentido. Interessou-me retratar sentimentos que ultrapassam a questão do género, do sexo, da classe social, até talvez da nação, investigar emoções que são compreendidas pela humanidade.
H.V.: Existem dois pontos fulcrais a partir dos quais se desenvolve a sua narrativa: o primeiro é um quadro de James Whistler e o segundo, " Morte em Veneza" de Thomas Mann. Porque é que a acção revolve quase obsessivamente em torno dessas duas obras?
A.L. O quadro e o livro têm importâncias distintas. Foi a partir do quadro que eu tirei a personagem Maria Inês e foi assim que surgiu a figura do pintor que se apaixonava pela imagem de uma mulher. Quanto a "Morte em Veneza" , a sua presença foi fruto do meu inconsciente. Li o livro há muito tempo e só o reli depois de ter acabado de escrever "Sinfonia em Branco".
H.V.: Em "Morte em Veneza" existe uma espécie de progressiva libertação e há a ideia do desejo sempre insatisfeito. É isso que acontece a Tomás?
A.L. Sim e é estranho porque agora, nesta conversa dou-me conta, subitamente, da analogia entre Thomas (Mann) e Tomás.
H.V.: E o facto de ter dado o nome de Clarice a uma das irmãs? Foi influência de (Clarice) Lispector?
A.L. Nunca considerei Lispector como uma influência directa naquilo que escrevo. Admiro-a muito, existem coisas que eu até reverencio nela - a sua capacidade de entrar pelo coração e pela alma dentro - mas ela faz isso de uma forma muito carregada.
H.V.: O tempo, na sua narrativa, não é linear, cronológico. A estrutura assemelha-se à de uma peça musical, com temas que são repetidos e recriados. A sua formação na área da música tem influência na sua escrita?
A.L. Sem duvida. No meu primeiro romance isso não aconteceu mas neste já é bastante nítido um exercício que, embora tenha princípio, meio e fim na minha cabeça, possui essa capacidade de narrar para diante e para trás, que é como a nossa memória trabalha. E há outras coisas que vão e vêm, aparentemente de uma forma caótica mas que, no todo, fazem sentido.
H.V.. Falando ainda das suas influências, parece haver uma aproximação a escritores como Virgínia Woolf que têm uma linguagem impressionista…
A.L. Sim, há uma grande influência do impressionismo. Sem a menor dúvida. Gosto muito dessa possibilidade da literatura captar imagens e lançá-las, sem grandes desenvolvimentos a respeito delas.
H V. A seguinte frase do livro, "uma moça que a memória sempre vestia de branco e juventude… antes de tudo, antes de quase tudo, quase antes de tudo", poderá ser considerada como uma súmula da obra?
A.L. Não tinha pensado nisso mas sim, é verdade. O livro procura fazer um jogo temporal já a apontar para algumas brechas no tempo quase como se houvesse vários caminhos e várias portas, algumas abertas, outras entreabertas, outras fechadas mas que se podem voltar a abrir…
H.V.: Quer falar do seu próximo livro?
A.L. Está a sair agora no Brasil, chama-se "O Beijo de Columbina" e é baseado em poemas do Manuel Bandeira. Ele representa uma das minhas principais escolas porque tem um apreço enorme pela simplicidade que é algo que eu persigo. Seleccionei cerca de vinte poemas que vão tecendo o livro, alguns dão nomes a personagens, outros a situações, outros ainda, a lugares. A acção vai-se costurando por aí.
Nota: O Prémio José Saramago tem o valor pecuniário de 25.000,00 euros e destina-se a autores com idade não superior a 35 anos.
"Sinfonia em Branco" está editado em Portugal pelo Círculo de Leitores e pela editora Temas & Debates
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